Ateísmo não é religião

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O título desse artigo pode parecer meio óbvio a princípio, mas já vi muitas discussões onde pessoas assemelham a fé em Deus e a negação de sua existência, pelo motivo de que ambas pregam uma suposta verdade mesmo sem o suporte de qualquer evidência.

Realmente não podemos afirmar que Deus não existe, até porque, se não existem provas de que ele existe, quanto mais provas de que ele não existe. Porém, há uma infinidade de outras coisas que também não podemos provar serem falsas, e isso não as torna reais ou possíveis. Desse raciocínio, podemos comparar a fé em Deus à crença em figuras folclóricas como o Saci-Pererê. Conforme crescemos, adquirimos mais e mais conceitos e informações que nos levam a concluir que o Saci é só uma lenda (bom, pelo menos foi assim comigo). Mas ainda assim, não existem provas de que ele não existe. A diferença é que somos “ensinados” a continuar acreditando em Deus mesmo depois de criança. Ou seja, a chance de Deus existir é a mesma de qualquer ser inventado pelo homem: tende a zero. O Bule de Chá de Russell exemplifica bem esse pensamento:

“Muitos indivíduos ortodoxos dão a entender que é papel dos céticos refutar os dogmas apresentados, em vez dos dogmáticos terem de prová-los. Essa idéia, obviamente, é um erro. De minha parte, poderia sugerir que entre a Terra e Marte há um pote de chá chinês girando em torno do Sol em uma órbita elíptica, e ninguém seria capaz de refutar minha asserção, tendo em vista que teria o cuidado de acrescentar que o pote de chá é pequeno demais para ser observado mesmo pelos nossos telescópios mais poderosos. Mas se afirmasse que, devido à minha asserção não poder ser refutada, seria uma presunção intolerável da razão humana duvidar dela, com razão pensariam que estou falando uma tolice. Entretanto, se a existência de tal pote de chá fosse afirmada em livros antigos, ensinada como a verdade sagrada todo domingo e instilada nas mentes das crianças na escola, a hesitação de crer em sua existência seria sinal de excentricidade e levaria o cético às atenções de um psiquiatra, numa época esclarecida, ou às atenções de um inquisidor, numa época passada.”

Se a ausência de evidência não é evidência de ausência, e portanto é impossível provar a inexistência de Deus, assim como o contrário também é verdadeiro, uma coisa é certa: se Ele existe (o que para mim é improvável), Ele não é como a grande maioria das religiões prega: pessoal e intervencionista. Vide o Problema do Mal do Cristianismo, que também se aplica a vários outros credos:

“Quererá [Deus] impedir o mal, mas não é capaz? Então é impotente. Será que é capaz, mas não o deseja? Então é malévolo. Terá tanto a capacidade como o desejo? Então por que é que existe o mal? Não terá nem a capacidade nem o desejo? Então por que chamá-lo de Deus?”

Organizando os argumentos:

  1. Deus é todo-poderoso e todo-amoroso.
  2. Se Ele é todo-poderoso, então Ele é capaz de acabar com todo mal.
  3. Se Ele é todo-amoroso, então Ele deseja acabar com todo mal.
  4. Mas o mal ainda existe.
  5. Portanto, Deus não existe.

Muitos contra-argumentam o Problema do Mal sendo o preço a pagar pelo livre-arbítrio. Contudo, o livre-arbítrio não justifica, por exemplo, o mal natural: catástrofes como terremotos e enchentes, onde ambos não sofrem interferência do homem (aquecimento global não vem ao caso aqui, já que desastres assim sempre ocorreram). A não ser que isso seja a vingança d’Ele, o que, novamente, iria contra o terceiro argumento. Livre-arbítrio esse que nem é suportado pela Bíblia, mesmo ela sendo controversa do princípio ao fim, não tendo nenhum valor racional:

“Mas graças a Deus que, embora tendo sido escravos do pecado, obedecestes de coração à forma de doutrina a que fostes entregues. E libertos do pecado, fostes feitos escravos da justiça.” Romanos 6:17-18

Concordo que me baseei quase que exclusivamente na fé cristã ao escrever este texto, mas lembre-se que o Cristianismo é a maior religião mundial, logo este artigo atinge a maior parcela da população. Fora que as religiões em geral não são tão diferentes umas das outras, todas tendo a mesma “raiz”, como se pode ver no documentário Zeitgeist.

Para finalizar, lembre-se de que ateus só acreditam em um Deus a menos que você, pressupondo que você não seja, obviamente, um ateu — ou politeísta. E sinceramente, se Deus for tão bom quanto pintam por aí, não acho que Ele abriria os portões do céu só porque alguém vai na igreja todo domingo de manhã só para puxar seu saco rezar, do mesmo jeito que ninguém cria um filho para que o mesmo fique lhe idolatrando pelo resto de sua vida. Duas mãos trabalhando fazem mais do que duas mil rezando.

Lembrando que essa é a minha opinião. Se você tiver uma diferente e não for um xiita me prometendo o inferno com Caps Lock ativada, sinta-se livre para se expressar nos comentários, desde que com argumentos coerentes.